O MACACO, O PÁSSARO E DOIS DIAS DA SEMANA
Sábado
Todos olhavam atentos. A expressão corporal, o local, a circunstância. Na platéia Alfredo pensa em Nelson Rodrigues e na peça que já assistira dezenas de vezes. Alaíde vai falar, pensa. Alguns segundos e nada. Alaíde vai falar. Nada.
A atriz sai de cena sem começar. “Clessi...Clessi...”, a primeira fala de Vestido de Noiva fica na cabeça de Alfredo. Passam-se mais alguns segundos e o público impacienta-se. Alfredo, aborrecido, resolve voltar pra casa, em meio a vaias e xingamento da platéia. Nem espera para receber o valor da entrada.
“Não posso mais, não é isso. Quero parar.” Juliana, a atriz que não disse a primeira fala da peça, fala com o diretor. Três meses atrás, tudo parecia bem, mas Juliana não queria ficar num palco pra sempre, repetindo o que outros disseram e escreveram. Agora, o rompimento, num momento delicado. Não tinha como esperar. “Juliana, ou volta agora para o palco ou não precisa mais voltar aqui amanhã. Você vai voltar a ser uma atrizinha de interior que veio para cidade grande e só consegue animar festa infantil.”, claramente fala Flavio, o diretor.
Comer fora é o que me resta. Pizza, não. Quem sabe peixe, arroz e salada. Depois de não assistir a peça, vou tentar não desperdiçar o resto do meu dia. As luzes da cidade à noite, a semana que virá, os problemas de trabalho são tantos que não lembro que existe um mundo, animas que somos, e pretensões de sermos divinos, enquanto não passamos de macacos com um pouco mais de habilidades.
Éfe, ó, dê, a, esse, e. “Não tenho interesse nisso, não quero fazer novela. Quero escrever, nem que sejam histórias para crianças, literatura infanto-juvenil. Reconhecimento do público só alimenta narcisistas, não que não sejamos todos um tanto narcisistas em menor ou maior grau, mas teatro não é mais o que me move.” Foda-se.
Vou ligar pro Diogo, quem sabe conversamos um pouco. Ele sempre me passa a imagem de alguém seguro, firme, que decide e segue em frente. Eu sou tão molenga, sem convicção, qualquer pressão e já obedeço. Sou um comunista ao avesso. Um burguês escravizado. Paulo Francis disse que a leitura nos permite deixar de ser servos. De tanto ler, acabei sem forças. Sempre penso demais, penso e penso...
No apartamento que divide com três amigos, Juliana resolve começar a escrever. O problema é: e o resto. O resto sempre é dinheiro. O que fazer? Não sou pássaro, sou um macaco com um pouco mais de habilidade. Um emprego de operário, rotineiro e aborrecido que me permita desenvolver meu projeto nas horas que estiver em casa.
Às vezes quero dizer apenas: foda-se. Minha cabeça me atormenta, não consigo deixar de pensar nos clientes, na pressão, como se segunda-feira eu fosse aquela moça no palco, e de repente não dissesse o que todos esperavam: “Clessi... Clessi...”. Ou, no meu caso, “terminarei hoje, resolverei isso, já está pronto...” Éfe, ó, dê, a, esse, e.
É isso, a fábula do macaco e do pássaro. Esta será minha primeira história infantil. O macaco era considerado o mais inteligente animal da selva. O pássaro tinha inveja disso. Ele voava e tinha uma vida rotineira protegendo os filhotes, construindo o ninho e buscando alimento. O macaco caçava e organizava a comunidade. Até que após alguns anos, um deles, com barba e um charuto resolve analisar o funcionamento da mente dos macacos. O pássaro continuava como operário padrão, o macaco tinha problemas, muitos deles estranhos para os pássaros. O que é essa tal de depressão. Ficam tristes, sendo tão inteligentes. O pássaro seguiu voando, cantando... O macaco buscava explicações...
Diogo não pôde vir hoje. Carla, minha namorada, está viajando. O que resta é esquecer o que está por vir. Alfredo abre a geladeira e pega a primeira cerveja, a primeira de várias. Um macaco com um pouco mais de habilidade. Abre a janela, olha a cidade do décimo andar, pensa numa solução. O pássaro, o macaco... Aquela moça deve ter levado uma bronca do diretor da peça...
Segunda-feira
Alfredo toma seu antidepressivo e segue para o trabalho pensando na atriz, no macaco que ele era, na cerveja e nos problemas
Flávia segue para procurar trabalho num mercado, provavelmente para arrumar prateleiras, pensando no livro que estava escrevendo.
Sábado
Todos olhavam atentos. A expressão corporal, o local, a circunstância. Na platéia Alfredo pensa em Nelson Rodrigues e na peça que já assistira dezenas de vezes. Alaíde vai falar, pensa. Alguns segundos e nada. Alaíde vai falar. Nada.
A atriz sai de cena sem começar. “Clessi...Clessi...”, a primeira fala de Vestido de Noiva fica na cabeça de Alfredo. Passam-se mais alguns segundos e o público impacienta-se. Alfredo, aborrecido, resolve voltar pra casa, em meio a vaias e xingamento da platéia. Nem espera para receber o valor da entrada.
“Não posso mais, não é isso. Quero parar.” Juliana, a atriz que não disse a primeira fala da peça, fala com o diretor. Três meses atrás, tudo parecia bem, mas Juliana não queria ficar num palco pra sempre, repetindo o que outros disseram e escreveram. Agora, o rompimento, num momento delicado. Não tinha como esperar. “Juliana, ou volta agora para o palco ou não precisa mais voltar aqui amanhã. Você vai voltar a ser uma atrizinha de interior que veio para cidade grande e só consegue animar festa infantil.”, claramente fala Flavio, o diretor.
Comer fora é o que me resta. Pizza, não. Quem sabe peixe, arroz e salada. Depois de não assistir a peça, vou tentar não desperdiçar o resto do meu dia. As luzes da cidade à noite, a semana que virá, os problemas de trabalho são tantos que não lembro que existe um mundo, animas que somos, e pretensões de sermos divinos, enquanto não passamos de macacos com um pouco mais de habilidades.
Éfe, ó, dê, a, esse, e. “Não tenho interesse nisso, não quero fazer novela. Quero escrever, nem que sejam histórias para crianças, literatura infanto-juvenil. Reconhecimento do público só alimenta narcisistas, não que não sejamos todos um tanto narcisistas em menor ou maior grau, mas teatro não é mais o que me move.” Foda-se.
Vou ligar pro Diogo, quem sabe conversamos um pouco. Ele sempre me passa a imagem de alguém seguro, firme, que decide e segue em frente. Eu sou tão molenga, sem convicção, qualquer pressão e já obedeço. Sou um comunista ao avesso. Um burguês escravizado. Paulo Francis disse que a leitura nos permite deixar de ser servos. De tanto ler, acabei sem forças. Sempre penso demais, penso e penso...
No apartamento que divide com três amigos, Juliana resolve começar a escrever. O problema é: e o resto. O resto sempre é dinheiro. O que fazer? Não sou pássaro, sou um macaco com um pouco mais de habilidade. Um emprego de operário, rotineiro e aborrecido que me permita desenvolver meu projeto nas horas que estiver em casa.
Às vezes quero dizer apenas: foda-se. Minha cabeça me atormenta, não consigo deixar de pensar nos clientes, na pressão, como se segunda-feira eu fosse aquela moça no palco, e de repente não dissesse o que todos esperavam: “Clessi... Clessi...”. Ou, no meu caso, “terminarei hoje, resolverei isso, já está pronto...” Éfe, ó, dê, a, esse, e.
É isso, a fábula do macaco e do pássaro. Esta será minha primeira história infantil. O macaco era considerado o mais inteligente animal da selva. O pássaro tinha inveja disso. Ele voava e tinha uma vida rotineira protegendo os filhotes, construindo o ninho e buscando alimento. O macaco caçava e organizava a comunidade. Até que após alguns anos, um deles, com barba e um charuto resolve analisar o funcionamento da mente dos macacos. O pássaro continuava como operário padrão, o macaco tinha problemas, muitos deles estranhos para os pássaros. O que é essa tal de depressão. Ficam tristes, sendo tão inteligentes. O pássaro seguiu voando, cantando... O macaco buscava explicações...
Diogo não pôde vir hoje. Carla, minha namorada, está viajando. O que resta é esquecer o que está por vir. Alfredo abre a geladeira e pega a primeira cerveja, a primeira de várias. Um macaco com um pouco mais de habilidade. Abre a janela, olha a cidade do décimo andar, pensa numa solução. O pássaro, o macaco... Aquela moça deve ter levado uma bronca do diretor da peça...
Segunda-feira
Alfredo toma seu antidepressivo e segue para o trabalho pensando na atriz, no macaco que ele era, na cerveja e nos problemas
Flávia segue para procurar trabalho num mercado, provavelmente para arrumar prateleiras, pensando no livro que estava escrevendo.
0 comentários:
Postar um comentário