domingo, 1 de janeiro de 2012

Perdido entre filmes e livros

Muitas vezes me sinto perdido no mundo cultural. Não encontro um "grande guia". Havia Paulo Francis, Wilson Martins e, tristemente, Daniel Piza que partiu. Arnaldo Jabor, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, continuam vivos mas quase não escrevem sobre livros e filmes. Normalmente escrevem sobre os ruins.

Ah, lembrei do João Pereira Coutinho, um dos poucos que restam como maître cultural. E o site da Dicta & Contradicta, com Joel Pinheiro, Martim Vasques da Cunha e cia.

Desabafo e volto ao essencial: LOST IN TRANSLATION. Um filme que me foi recomendado pelo Diego Cé Souza e pelo João Pereira Coutinho. Simples e fabuloso. Bill Murray interpreta um ator decadente que vai ao Japão para fazer propaganda de uísque. Scarlett Johansson está no mesmo hotel que Murray (no filme Bob Harris), em Tóquio, sem saber que profissão seguir, aguardando monotonamente o namorado voltar do trabalho. É a história de uma relação que está entre a amizade e o amor, o que talvez não diga muito porque os dois sentimento se confundem. Não há efeitos especiais, não há uma história mirabolante, não há um romance piegas. Ao final fica o olhar umidecido e se sente saudade dos dois personagens, Bob e Charlotte, como se sente saudade do universo ficcional de Anna Kariênina.

Em 2011, pra mim, o melhor filmes foi LOST IN TRANSLATION, mesmo que o filme seja lá de 2004, no Brasil, e 2003, nos EUA.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Eu sei que a gravação é meio tosca. Eu sei que a melodia é repetitiva. Eu sei que toco e canto mal. Mas também sei que João Cabral de Melo Neto é o maior poeta que conheço e também sei que tudo que eu sinto está neste vídeo.

http://www.youtube.com/watch?v=bxySKKSoh30

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Outros mundos

Talvez este não seja o meu mundo, mas ás vezes existem algumas coisas interessantes. Estou lendo A Interpretação dos Sonhos de Freud. Como é límpido o seu pensamento, mesmo que a medicina ligue nosso pensamento cada vez mais a explicações científicas, continuo lendo: Freud, Freud, Freud...

Li, antes, o livro de Valter Hugo Mãe, A Máquina de Fazer Espanhóis, e como é adimirável o português de Valter. Qualquer escritor que não seja brasileiro me parece ter um estilo atraente, Valter é angolano, Lobo Antunes e Saramago portugueses, e eu um brasileiro que nem sabe escrever em sua própria língua. Tentarei continuar, mas quanto menciono certos escritores fico pensando em queimar meus livros, e nunca mais escrever algo, tamanha vergonha. Continuo, por pura falta de bom senso.

Li também A Morte e A Morte de Quincas Berro D'Água de Jorge Amado. Ele escreve boas histórias e nesse caso muito divertida. Joaquim que tinha família e era respeitado se tranformou em Quincas, vagabundo, boêmio, bêbado. A melhor metáfora para aqueles momentos em que queremos fugir dos ditames sociais. Cantar como Jùpiter Maçã, "Foda-se, não tô nem aí...".

domingo, 31 de julho de 2011

Discutível Dostoievski

Li O IDIOTA. Sempre tive certeza que Tolstói escreve romances mais interesssantes e que me prendem do início ao fim. Lendo o livro de Dostoievski, confirmei mais uma vez minha modesta opinião. Pode-se refletir sobre o personagem, sua simplicitada, sua franqueza, como abusam da ingenuidade dele, mas para além de alguns diálogos confusos, Michkin fica se digladiando entre duas mulheres que riem e debocham dele. E é isso. Continuo achando os personagens de Lúcio Cardos mais adormentados e cruéis do que os de Dostoievski, mas que sou eu?

Passo agora para o livro MACHADO E BORGES do Luis Augusto Fischer. Em breve mais comentários.

sábado, 2 de janeiro de 2010

O MACACO, O PÁSSARO E DOIS DIAS DA SEMANA

Sábado

Todos olhavam atentos. A expressão corporal, o local, a circunstância. Na platéia Alfredo pensa em Nelson Rodrigues e na peça que já assistira dezenas de vezes. Alaíde vai falar, pensa. Alguns segundos e nada. Alaíde vai falar. Nada.

A atriz sai de cena sem começar. “Clessi...Clessi...”, a primeira fala de Vestido de Noiva fica na cabeça de Alfredo. Passam-se mais alguns segundos e o público impacienta-se. Alfredo, aborrecido, resolve voltar pra casa, em meio a vaias e xingamento da platéia. Nem espera para receber o valor da entrada.

“Não posso mais, não é isso. Quero parar.” Juliana, a atriz que não disse a primeira fala da peça, fala com o diretor. Três meses atrás, tudo parecia bem, mas Juliana não queria ficar num palco pra sempre, repetindo o que outros disseram e escreveram. Agora, o rompimento, num momento delicado. Não tinha como esperar. “Juliana, ou volta agora para o palco ou não precisa mais voltar aqui amanhã. Você vai voltar a ser uma atrizinha de interior que veio para cidade grande e só consegue animar festa infantil.”, claramente fala Flavio, o diretor.

Comer fora é o que me resta. Pizza, não. Quem sabe peixe, arroz e salada. Depois de não assistir a peça, vou tentar não desperdiçar o resto do meu dia. As luzes da cidade à noite, a semana que virá, os problemas de trabalho são tantos que não lembro que existe um mundo, animas que somos, e pretensões de sermos divinos, enquanto não passamos de macacos com um pouco mais de habilidades.

Éfe, ó, dê, a, esse, e. “Não tenho interesse nisso, não quero fazer novela. Quero escrever, nem que sejam histórias para crianças, literatura infanto-juvenil. Reconhecimento do público só alimenta narcisistas, não que não sejamos todos um tanto narcisistas em menor ou maior grau, mas teatro não é mais o que me move.” Foda-se.

Vou ligar pro Diogo, quem sabe conversamos um pouco. Ele sempre me passa a imagem de alguém seguro, firme, que decide e segue em frente. Eu sou tão molenga, sem convicção, qualquer pressão e já obedeço. Sou um comunista ao avesso. Um burguês escravizado. Paulo Francis disse que a leitura nos permite deixar de ser servos. De tanto ler, acabei sem forças. Sempre penso demais, penso e penso...

No apartamento que divide com três amigos, Juliana resolve começar a escrever. O problema é: e o resto. O resto sempre é dinheiro. O que fazer? Não sou pássaro, sou um macaco com um pouco mais de habilidade. Um emprego de operário, rotineiro e aborrecido que me permita desenvolver meu projeto nas horas que estiver em casa.

Às vezes quero dizer apenas: foda-se. Minha cabeça me atormenta, não consigo deixar de pensar nos clientes, na pressão, como se segunda-feira eu fosse aquela moça no palco, e de repente não dissesse o que todos esperavam: “Clessi... Clessi...”. Ou, no meu caso, “terminarei hoje, resolverei isso, já está pronto...” Éfe, ó, dê, a, esse, e.

É isso, a fábula do macaco e do pássaro. Esta será minha primeira história infantil. O macaco era considerado o mais inteligente animal da selva. O pássaro tinha inveja disso. Ele voava e tinha uma vida rotineira protegendo os filhotes, construindo o ninho e buscando alimento. O macaco caçava e organizava a comunidade. Até que após alguns anos, um deles, com barba e um charuto resolve analisar o funcionamento da mente dos macacos. O pássaro continuava como operário padrão, o macaco tinha problemas, muitos deles estranhos para os pássaros. O que é essa tal de depressão. Ficam tristes, sendo tão inteligentes. O pássaro seguiu voando, cantando... O macaco buscava explicações...

Diogo não pôde vir hoje. Carla, minha namorada, está viajando. O que resta é esquecer o que está por vir. Alfredo abre a geladeira e pega a primeira cerveja, a primeira de várias. Um macaco com um pouco mais de habilidade. Abre a janela, olha a cidade do décimo andar, pensa numa solução. O pássaro, o macaco... Aquela moça deve ter levado uma bronca do diretor da peça...

Segunda-feira

Alfredo toma seu antidepressivo e segue para o trabalho pensando na atriz, no macaco que ele era, na cerveja e nos problemas

Flávia segue para procurar trabalho num mercado, provavelmente para arrumar prateleiras, pensando no livro que estava escrevendo.





sexta-feira, 26 de junho de 2009

Mudando...

Deixei Bukowski pra lá. Deixei jornalismo pra lá. Agora curso letras. Ao menos estudo algumas coisas interessantes e não descontrucionismo foucaultiano. Tenho ouvido menos música clássica. Na verdade, quase nada. Escrito menos. Trabalhando e infeliz, como sempre.

Tenho vontade de descobrir coisas boas na literatura brasileira, mas não é fácil. Redescobri Graciliano Ramos. É o nosso Hemingway estilisticamente. Confirmei que Machado de Assis é grande porque posso reler quantas vezes quiser seus livros e gostar. Fernando Pessoa é demais, pricipalmente seu heterônimo Álvaro de Campos, o mais histérico deles. Senhora é até legível, mas O Guarani é péssimo. Vale a pena ler Romance d'a Pedra do Reino de Suassuna, mas não ouça o que ele fala sobre política hoje em dia, pois é só bobagem. Devo muitas dessas descobertar ao Reinaldo Azevedo, no livro Contra o Consenso.

Descobri também Lúcio Cardoso - escritor mineiro que não se percebe nem que é brasileiro. Seus personagens e ambientes são assustadores. Deu-me uma angústia maior ao ler O Desconhecido e Mão Fechadas do que quando li O Estrangeiro de Camus.

Continuo procurando bons escritores brasileiros que não são lidos nas escolas...

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Para mim, assim eram os personagens de Proust.

Terraço em Sainte-Adresse, 1867, Monet.

Novamente este Monet.